Tuesday, May 12, 2009

Leite derramado – Chico Buarque

Devorei o livro “Leite derramado” de Chico Buarque, no entanto não me atreverei a postar resumo de obra tão primorosa.

Chamou-me atenção a narrativa fragmentada, não linear que são características da memória. Mais curioso foi notar que eu poderia dizer que Chico escreveu “écriture feminine” (escrita feminina) no sentido que Hélèn Cixous da a esse termo: um texto que vem do corpo; uma escrita a partir do corpo “feminino” – as aspas aqui colocadas para indicar que não se trata do sexo, mas sim de uma característica literária.

Quero ainda expandir essa ideia – farei isso no futuro. Talvez esse seja mais um texto a contribuir com a desconstrução da dicotomia de gênero, afinal um homem escreve certa escritura feminina narrada por personagem masculino.

__________________________________________________________

I devoured the novel “Leite derramado” from Chico Buarque; however I don’t dare summarizing such a beautiful piece.

The fragmented, non-linear narrative called my attention for fragmentation and non-linearity are characteristics of our memory. Moreover, I could say Chico wrote “écriture feminine” (women’s writing) as Hélèn Cixous describes it: a text that is written from the body; a writing that comes from the “female” body – quotes used to point out that this does not mean female sex; rather, it is a literary characteristic.

I still want to expand this idea – will do it in the future. Maybe this work will contribute with the deconstruction of gender dichotomy, after all, a man wrote a certain women’s writing narrated by a male character.

“A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas.” (p. 41)

“Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo.” (p.61)

No comments: